A 79.ª edição do Festival de Cannes, que decorreu de 12 a 23 de maio, não teve nenhuma longa-metragem portuguesa na competição principal. Ainda assim, o cinema nacional fez-se notar em várias secções, entre estreias fora de concurso, curtas-metragens de jovens realizadores e coproduções de peso. A Portugal Film Commission contabilizou cinco obras com participação portuguesa no festival.
«Aquí», de Tiago Guedes, na Cannes Première
O destaque foi Aquí, a nova longa de Tiago Guedes, exibida a 18 de maio na secção Cannes Première, fora de competição. O filme adapta a chamada «trilogia de Jesus» do Nobel J. M. Coetzee, publicada entre 2013 e 2019, com argumento do realizador e de Luís Araújo.
Produzido pela Leopardo Filmes, de Paulo Branco, em coprodução com a RTP, a APM e a francesa Alfama Films, o filme foi rodado em Espanha e em Portugal e reúne um elenco maioritariamente internacional: Manolo Solo, Patricia López Arnaiz, Lambert Wilson e Sergi López, entre outros, com participações especiais de Ángela Molina, Itsaso Arana, Fernando Trueba e do português Albano Jerónimo. A estreia nas salas portuguesas está marcada para 3 de dezembro de 2026. Guedes já tinha passado pela competição de Veneza em 2019 com A Herdade e pela Seleção Oficial de Cannes em 2022 com Restos do Vento.
Duas curtas na corrida
Na competição oficial de curtas-metragens esteve Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio, de Daniel Soares, uma das dez curtas escolhidas entre 3184 candidaturas de 136 países. Em 14 minutos, o filme acompanha um grupo de adolescentes que se deixa levar pela corrente de um rio a fingir-se morto para as redes sociais, até que um deles se afasta sem que ninguém repare. A produção junta O Som e a Fúria, L’Oeil Vif e Kid with a Bike. O realizador, nascido na Alemanha, já tinha recebido uma Menção Especial em Cannes em 2024 com Mau por um Momento e prepara a primeira longa, 900 Toneladas. A Palma de Ouro da curta-metragem acabou por ir para Para los contrincantes, de Federico Luis.
Na La Cinef, secção dedicada a escolas de cinema, foi apresentado Onde Nascem os Pirilampos, de Clara Vieira, aluna da Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC).
Bruno Dumont com produção portuguesa e uma obra imersiva
Na Quinzena dos Cineastas, Les roches rouges, de Bruno Dumont, chegou com produção da portuguesa Rosa Filmes, de Joaquim Sapinho e Marta Alves, em coprodução com França, Itália, Espanha e Qatar. O filme passa-se na costa mediterrânica francesa, entre grupos de crianças que saltam das falésias para o mar.
Já na Competição Immersive, dedicada a realidade virtual e experiências mistas, Lúcido, de Vier, teve a sua estreia mundial em representação de Portugal.
O que significa para os talentos em Portugal
Cannes 2026 mostra duas realidades: realizadores portugueses a crescer a partir da curta-metragem e produtoras nacionais a entrar em projetos internacionais com elencos de vários países. Para atores e atrizes, os elencos mistos de filmes como Aquí lembram que a coprodução abre portas a papéis em projetos europeus. Para os mais jovens, a presença de escolas como a ESTC em Cannes confirma que as curtas de estudantes, muitas vezes feitas com elencos e figurantes recrutados localmente, podem chegar às maiores montras do mundo.
Fontes: Portugal Film Commission, Renascença, Alfama Films, Observador, Magazine HD, Luxbox, Festival de Cannes

